Para atravessar contigo o deserto do mundo.*


A inquietude reserva-nos, ainda que não nos resguarde.

Lidar com inquietude é fardo pesado, que não raro nos causa embaraço. E quem pode não se tomar por inquieto quando se faz capitão de navio sem rumo certo? Os olhos que se fecham na expectativa de um amanhã que pode não chegar fecham-se mais pesados, com menos esperança. Planos feitos sobre um caminho de nuvens que a qualquer momento se podem desvanecer. Um barco à deriva, ao sabor das marés e dos ventos.

Contudo, não posso se não pensar que talvez seja exactamente esta espécie de anátema que nos acompanha os dias que não nos deixa toldar o raciocínio com lamechices de vão de escada e nos permite, em consciência, traçar um rumo ao navio que nos leva para a frente; para onde queremos chegar. Ainda que não cheguemos. Ainda que cheguemos cheios de mazelas, daquelas da alma, que nem a água pode lavar.

Make it happen. Or die trying.



* Sophia de Mello Breyner Andresen.
** Rita.

11 anos.









Saudades tuas. Every single day.
Foram 18 anos contigo que me fizeram quem sou. Obrigada por isso. More than words can say.
Amo-te tudo mana. Para aquele tal de sempre.




Não há ninguém como tu.


Não há ninguém como tu.


Há pessoas parecidas, da mesma altura, com o mesmo feitio. Pessoas que vestem as mesmas roupas e que sabem falar das mesmas coisas. Há, até, pessoas com os mesmos jeitos. Mas nenhuma, nem uma, como tu.
Lá fora está frio e na rua cruzei-me com um senhor que ostentava uma camisola igual à tua, aquela de cashmere encarnada, onde gosto de me aninhar. Era um senhor mais velho, com uma farta cabeleira branca e um andar sereno a acompanhar a solidão da chuva. Ficava-lhe bem.


Continuei em frente. Quando cheguei ao Banco tropecei num degrau e deixei que tudo me caísse ao chão. Apenas de forma literal, entenda-se.
Com a educação ainda a gravitar por cima, um senhor ajudou-me a apanhar tudo o que jazia espalhado pelo gasto mármore branco. Agradecida, levantei a cabeça e sorri. A olhar para mim, uns olhos cor de mel, como os teus. E eu, atrapalhada devo ter corado, porque ele sorriu. Senti as bochechas mais quentes, como se o meu sangue me quisesse envergonhar. Entrei no elevador e dois segundos depois já pensava noutras coisas.


Mais tarde almocei com um colega, aquele que quando ri me faz lembrar de ti. Penso sempre no nano segundo que te antecede uma gargalhada e fico feliz, como se tudo no mundo estivesse no sítio certo, incluindo eu, que pareço andar sempre perdida, sem jeito ou lugar.


Reconfortada, e já sentada em frente ao computador, reflicto na quantidade de almas que nos rodeiam e nos cruzam os dias; na quantidade de coisas que apitam nos meus sentidos e enviam sinais ao meu cérebro para não me esquecer de que me estou a lembrar de ti. Penso na quantidade de pessoas que conheço e nas que não conheço, nas que ainda vou conhecer e nas outras, que não me darão esse privilégio.
Penso em ti, no quanto do teu eu já me deste a conhecer e no quanto de ti me aviva a memória quando por uma ou outra razão me chega cá dentro.


E concluo, sem sombra de dúvida, que não há ninguém como tu.
Será sempre só teu esse curvar de corpo que me recebe perto dessa camisola.
Serão sempre mais brilhantes e doces os teus olhos quando me olham sem pudor.
Será sempre único o teu sorriso.
A verdade é que não há ninguém como tu, e é de ti que eu gosto.



* Paris.

Avô Armando.


Domingo passado fez-se Outono e o meu coração ganiu de dor.
Sete dias volvidos, as ruas arrogam-se o privilégio de ser as mesmas mas eu sei que nada continuará igual. Ainda ouço o eco dos teus passos, firmeza cantada do teu sempre distinto porte. Sempre foste um Senhor e isso sempre fez toda a diferença.
Cheguei pequena para te amolecer o coração, esse que ainda julgavam à prova de tudo. Troquei-te as voltas quando me pegaste ao colo e ensinaste a regar o jardim e sei que te fiz sorrir quando te segui os passos. Colega, chamavas-me tu com orgulho. E eu encantada, consciente da grandeza que nos separava o saber.
Ainda não sei como vou aprender a entrar em tua casa sem te ver na copa a tratar dos queijos, no canto da sala de jantar a trabalhar ou tao só no escritório a ver televisão. Melancólica a ausência das presenças que em nós existem desde sempre. E eu que ia fingindo acreditar no impossível perpetuar de uma vida já tão longa, como se nada te pudesse levar para longe de mim.
Os meus metros quadrados de mundo choram agora com saudade, com o coração a transbordar de coisas por te dizer. Tinhas em ti um mundo de histórias que temo por vezes terem ficado por contar. Queria ter-te abraçado mais, ter partilhado mais desses teus risos cantados em tom de criança, tão puros que pareciam fazer troça da própria felicidade. Queria ter-te dito mais vezes o quanto me orgulhava de ti, sem ter deixado o egoísmo dos dias me toldar a existência.
Resta-me o consolo de me teres amado com carinho até ao último domingo, dia em que, cansado, te quiseste fazer o Outono que já tardava a chegar. E eu que tanto gosto da singela e serena beleza do Outono, não posso se não recordar-te neste dourado que agora nos brinda os dias que correm suaves por entre o barulho das folhas secas.
Que bom é saber-te Avô, agora tão bem acompanhado. O meu coração, que já ai estava em cima, permanece agora no teu amor. Gosto tanto de ti.
Um até já da tua colega,
Sofia

Geografia interior.


Madrid estava peganhenta. Agarrava-se-nos à pele sofregamente, como quem teme, ou como quem ama, mísera comparação. Ainda que a verdade seja que quem ama, teme; teme a falta, a ausência, a perda do amor que preenche e completa.
A contrastar com a calmaria do voo, a turbulência pisava Atocha. Tremia o chão com o cavalgar da indignação que havia saído à rua vestida nas mesmas cores e liderada por apitos e palavras de ordem.
O metro revelou-se um pensado mapa de eficiência que nos transporta de um lado para o outro em ramificações coloridas e nomes de encantar. Rimo-nos alto, sem vergonha.
Longe da indignação reinava a calmaria, amolecida com o calor que por ali se fez sentir até de madrugada. Uma espécie de lavagem moral suada que vai libertando os vapores tóxicos dos nossos redimidos pecados. Que os levem, que os levem.
Dou por mim encantada com as disparidades geográficas que nos moldam e intuem quem somos. Dou-me como avessa ao timbre de voz que poderia ser o meu, tivesse eu nascido uns quantos metros ao lado, filha de outras gentes, criada noutras terras. Já não conheceria de cor as minhas ruas, os meus lugares, mas a verdade é que então não seriam meus, dando lugar a outros a que chamaria de casa. Poderia ter nascido no ventre de uma família nómada, sem lugar para criar raízes. Os meus cabelos poderiam ser de outra cor, a minha pele mais escura, os meus modos diferentes. Penso na melancolia triste de não conhecer as pessoas que conheço hoje e que fiz minhas, que me fizeram suas.
Pergunto-me se vês o mundo igual ou será este meu mundo uma mera criação das minhas próprias vivências, dos meus quereres, da minha imaginação. Diz-me, vês o que eu vejo?
Acordo suada, sem lembrança de ter ligado a ventoinha velha que agora dança manca no tecto.
Ao meu lado comes gomas, distraído, baixinho para não me acordar. Olho-te com olhos ensonados, abraço-te e volto a dormir, descansada, porque de uma maneira ou de outra, fazes parte do meu mundo e não és um produto da minha imaginação, antes do meu querer.





* Real Madrid.




Us.




«There we two, content, happy in being together, speaking little, perhaps not a word.»


Walt Whitman, A Glimpse



* Douro.

Vou à terra.




Vou à terra. Logo eu, que não a  tenho.
Foram anos a sentir o desconsolo da solidão, essa que fere as articulações, tão árdua se torna a caminhada que um faz num frio silêncio.
Sozinha e sem terra; sem poiso de estimação; sem porto de abrigo. Sozinha era já nome do meio, companhia das noites de insónia e dos fantasmas que nos habitam o cérebro e, antagonicamente, o coração.
Sem humildade jurava que quem cantava o fado, o fazia exclusivamente para mim, como se se limitassem a relatar o disposto no meu código de barras. E que triste que isso era.
Hoje isso não é presente, antes pretérito imperfeito.
Ofereceste-me o teu abraço que se tornou num safe place que posso já chamar de casa. 
E porque a terra faz parte do teu conceito de casa, trouxeste-a contigo. Com ela vem conforto e saudade, vêm memórias e liberdade. Como um sítio onde queres sempre voltar. Assim me quero a mim, como se fosse tua esta terra de que me faço e desfaço quando o vento sopra de norte. Volta, volta sempre, que clamo saudade.
E aqui confirmo que o que faz a terra ter nome de gente é o ser crente da família, essa que se constrói com muros de amor e fundações anti-sísmicas. Mesmo depois de furacões, estarão sempre de pé os corações. Há sempre um abraço, um espaço quente, um pão na mesa que é minha, a gente. E há sempre lugar para mais um, porque quem vem, vem por bem.
E agora em honra da Santa, há procissão e garraiadas. Há no chão o eco dos vivos e no ar a saudade dos que por lá passaram. Há bailarico e gargalhadas, conversas ao tempo roubadas. E assim se reveste e caia de novo as fundações da família e resulta ainda mais forte o amor que a todos une.
Vou à terra. Vou a ti. Em ti construo a minha terra sem medo da solidão, essa a quem, graças a Deus, me roubaste.
Vou à terra. Como se a tivesse, chamo-a pelo nome como se a pudesse fazer minha. Assim quase a sinto.
Vou à terra. Ainda que a não tenha, ela está dentro de ti e tenho a sorte de não te importares de partilhar.



* Brufe, também é terra de alguém.

Dos irmãos.


 

Há uma frase que li e que de quando em vez a mim regressa: “Um irmão que morre fecha a porta da infância para sempre”, escreveu Agustina.
Há ecos que doem de forma diferente.
Morreu-me uma irmã. À minha Mãe morreu-lhe um irmão. Não deixo de ter medo disso, quase como se me angustiasse a hipótese de ser uma espécie de triste fado que percorra esta artéria familiar.
E, ainda que saiba que a Agustina tem razão, não deixo de me regozijar perante a facilidade com que, não raras vezes, o desminto.
Tive uma boa infância. Uma óptima infância. Vivi o tempo com tempo, hoje gabo o poder de uma educação sóbria e racional. A valorização sensata de valores e a serenidade da ingenuidade sincronizada permitiram-me ser criança para daí ser jovem e assim sucessivamente.
Infância rima com irmã, porque há laços de sangue que nos constroem por dentro e nos agarram a alma ao corpo na altura certa. São pilares que nos mantêm firmes pelos percalços do caminho. Os irmãos gerem o sangue com uma linguagem muito própria. Falam verdadeiros dialectos de ternura, mesmo quando gritam sem nexo ou fazem queixinhas. Há palavras que se aprendem e ganham outro significado com um irmão, como partilhar. Porque sem que nos digam sabemos que ali estarão para sempre, para tudo, como se padecessem das nossas dores só por terem ganho forma na segurança de um mesmo útero. A vulnerabilidade congénita de que sofremos é atenuada pela mera presença de um irmão. Talvez por isso seja tão dilacerante a sua ausência. Quando a vida nos rouba um irmão, não conseguimos deixar de deitar um esgar maldoso para o universo e dizer asneiras bem alto. Que a vida é injusta e a morte demasiado precoce.
E a saudade nem sempre tem de devastar, que a mesma pode ser educada numa reconfortante companhia que nos aquece o coração nos dias mais cinzentos.
Talvez por isso essa seja uma porta que não queira fechar. Não por ter medo do desgaste da pele, do cansaço do corpo, mas tão só por ter sido um tempo feliz.
É assim que não consigo deixar de me regozijar perante a facilidade com que, não raras vezes, desminto o que li. Tive uma boa infância. Tive uma óptima infância. Bem haja a bênção de ter tido uma irmã.

  * Avó, Avô, Mãe e dois dos seus cinco irmãos.

Tia Maria.


Ainda não tinha aberto os olhos quando me quiseste contar uma história. Começaste a medo, ideias desorganizadas, perdeste o fio à meada. Mas depois abri um olho e descobriste o norte e a história rezava assim:

«Todos os anos é a mesma coisa. Uma espécie de tradição familiar que alguém se lembrou de começar quando o tempo ainda lá ia atrás.
É sempre em Julho, que quis a vida que nascesse então. O calendário preenche-se assim, com os nossos, ou então os números seriam apenas rabiscos sem sentido.

Por esta altura já o calor se instalou no seu podium, com vista de mar e privilégios de administrador. O sol aquece, provocador, como se nos quisesse ameaçar de um brilho sem fim.

A azáfama repete-se em goladas refrescantes que enchem a casa de vida e os silêncios de ar. O ritmo declara que se acorda cedo e as mesas são postas logo pela manhã. A praça recebe a visita da Mãe, sempre acompanhada pelo Pai, fiel companheiro dos dias. O velho cesto de verga enche-se de coentros, alface, pimentos e tomates. A salada é sempre verde e os pimentos bem assados. As sardinhas, essas, já se fizeram adultas e anafadas e parecem prontas para dois dedos de conversa com o grelhador do jardim. Depois ainda há o queijo e o presunto e não podemos esquecer o pão, inteiro, sem vácuo, afinal é pão de Mafra. Depois vêm os tachos, as panelas, que falam sempre alto. Uma tia faz arroz e as outras andam à volta das entradas. Nunca pára o burburinho, que o silêncio nem sempre se coaduna com a alegria. Cheira a verão e o apetite enche-se de coragem. Os copos suam o gelo e mantêm fresco o espumante e o vinho branco.

Apesar da azáfama, o que sobra é sempre a calma. Há tempo, ainda que não saibamos quando acaba. Nada é feito com pressa, apenas com zelo. Não há hora marcada para nada e o andamento é feito ao compasso da vontade colectiva. Os convidados vão chegando à vez e já se sabe quem chega primeiro e quem será o último a chegar. De outra maneira não seria a mesma coisa, que as tradições contam com o hábito e os costumes contam com as pessoas. É certo que os mais atrasados talvez já não vejam as empadas quentinhas pousadas na mesa do canto, mas quem não vê é como quem não sente.

A rede baloiça e a suave brisa que se faz sentir é promessa de que voltará a estar cheia. A música toca baixinho, numa espécie de embalo. Lá em baixo a piscina promete refresco e o seu azul hipnotiza os mais encalorados. Mais tarde, é certo, aparecerá a preguiça, sem convite mas não se fará rogada.

De barriga cheia cantam-se os parabéns, para gáudio do brilho dos seus olhos. O melhor presente é a presença constante dos que nos rodeiam e não há nada que lhe dê mais prazer.
Um beijinho e outro, seguidos sempre de um abraço. Rodam à vez, todos a querem parabenizar. Os mais velhos e os mais novos, indiferentes às marcas do tempo, que cada um assume à sua maneira. A família cresce mas vai sempre havendo lugar para mais um. E ela quando gosta, gosta mesmo, que é esperta para saber que não há outro tipo de gostar.

Todos os anos é a mesma coisa. Uma espécie de tradição familiar que alguém se lembrou de começar quando o tempo ainda lá ia atrás. Mas agora que o tempo aqui chegou, lembrou-se de a levar e este ano não será a mesma coisa.

Se o vizinho de cima por ali passar, numa espécie de congelar do tempo, vai achar tudo igual, reposição de um filme, que não há nada que deixemos faltar. Mas quem por ali anda sabe a verdade e a verdade é que o tempo a levou e nunca mais nada será igual.

A tradição manter-se-á, homenagem sentida a tudo o que representa. O seu lugar estará vazio, como vazio me faz sentir a saudade. Mas que se alegre, onde estiver, que uma coisa é certa, cheio trago o coração, aquele onde sempre terá lugar.

Parabéns Avó.»

 
* Alentejo.

Acorda-me quando chegares.



Há um jeito tão teu que me deixa tonta, como quando ando perdida, às voltas, naquela curva que faz o teu corpo quando liga o teu pescoço ao ombros. Nessa vertigem sobe-me o sangue à cabeça e fico com vontade de te agarrar e levar para Alijó, ainda que nem saiba onde isso fica. Achar-me-ás pateta, bem o sei, mas tinha de to dizer.
São nano segundos de incontida emoção que me salta pelos olhos e me enche em demasia o coração que fica a transbordar de amor por ti e de uma vontade imbatível de te acarinhar. Como se fosses frágil, de uma fragilidade frugal e diferente da que nos é inerente. Mas depois levantas-me no ar de uma penada e esqueço essa ideia, que me sinto protegida da minha própria fragilidade quando estou nos teus braços.
Dizia eu, antes de me interromper – o que acontece amiúde – que há um jeito tão teu que me deixa tonta. Dou por mim a rever-te em câmara lenta numa tentativa honesta de tentar congelar o tempo, esse grande sacana. No outro dia estava eu nisso, quando me perdi no supermercado. Não rias, é sério. Uma sombra imensa num corredor sem fim ladeado por brócolos, como se fossem árvores imponentes e estivéssemos naquela estrada em Barcelos. E eu que só pensava em lá ir fora, acabei bem lá para dentro, a ter de pedir indicações ao senhor do talho que me dizia, perplexo, para não me assustar, que a saída era já ali ao lado. Chamou-me menina e eu acreditei e permiti-me sorrir.
Quando saí respirei fundo e liguei-te. Estavas sentado à mesa, entretido com umas cerejas que sabem a cerejas, trazidas em caixas da Gardunha. E eu que não sei comer cerejas e acabo sempre com os dedos pintados e a boca toda suja a adivinhar pelo canto do olho o teu sorriso malandro a fazer pouco de mim. Fui directa a ti, que te decorei o caminho e sim, também te decorei a caminho. Apaziguas-me sempre o espírito, como se tivesses um dom maior do que tu, do que nós, que te permitisse dividir serenidade por aí. Faço do teu sorriso uma casa e do teu abraço um destino. E é sempre assim que me encontro de cada vez que, tonta ou distraída, me deixo perder. E ainda me espanta que não percebas porque é que te agradeço esse teu trabalho vigilante que exibes com carinho e ainda dizes, no fim, que o gosto é todo teu. Quando é claro que não é, que me delicio sem vergonha até não mais poder.
E hoje, hoje a rua cheira a calor e eu só me consigo lembrar desse jeito tão teu. Que me deixa tonta. Mais do que aquilo que sou. Sem perder o equilíbrio, é bom de ver. E hoje, hoje não posso ir directa a ti, que não estás, resta-me esperar que voltes e que faças barulho ao chegar, que eu não quero dormir enquanto não estiveres.



* D.

Os três porquinhos.



 De quando em vez a vida varre-nos a serenidade através de pequenas vagas de tornados.
Chegam precipitados, sem aviso, oscilando perigosamente sobre o espírito que tentamos carregar equilibrado, oscilando as costas, instáveis, não fosse a turbulência tão intensa.
O vento lá fora uiva caótico e furioso e o instinto resguarda-nos por dentro, para que a tempestade não nos arraste o espírito. 
O que nos cimenta são os nossos, as memórias, a integridade e os ideais. Quem somos e como escolhemos ser estrutura-nos de forma a que nos seja possível não entrar em colapso ou deformar excessivamente. Vergar, mas não quebrar.
Os danos sofridos são tanto menores quanto mais sólida a nossa estrutura, pelo que nos vamos redimensionando e reforçando para conseguir aguentar as investidas. 
Não raro, sobrevivemos.
Quando restam janelas ou portas para abrir, olhamos para fora e o mundo que vemos está de pernas para o ar. O que nos salta aos olhos é sempre a destruição, o rasto de dor que ainda vibra à passagem de cada tornado, por pequeno que seja. 
Um dia talvez consigamos compreender que a cada pequeno tornado nos fortificamos. Que os destroços maiores ficam cá dentro mas que, ainda assim, somos capazes de nos reconstruir de novo, que o coração é a única máquina que mesmo partida, continua a funcionar. 


* Barcelona.

O difícil é contar com isso.



Foi num dia destes.
Sem saber como deixaste de aqui estar. Minto, foste-te embora, mas não deixaste de aqui estar. De repente toda a tua presença se tornou latejante e fui invadido por uma saudade lancinante.
Ao início tive-te sem questionar. A idade impedia-me de tirar grandes ilações e a tua visita foi-se prolongando no tempo sem tempo para terminar.
Cresci à tua beira, a ouvir-te sorrir e a ver-te na azáfama a que a tua vida, por vezes dura, já te tinha habituado. Ensinaste-me o que pudeste, provando que a escola da vida supera sempre os bancos da escola. Deste-me a mão muitas vezes, calejada por todas as tarefas que sempre desempenhaste sozinha, como ninguém. Nunca tiveste medo da vida, mesmo quando esta, zombateira, te atirou pedras. A família enchia-te o sorriso e deixava-te o coração palpitante por disfarçar. Era com humilde vaidade que a vias crescer e singrar.
O preto tingia-te a figura mas nunca a alma. Aguentaste-me as tropelias e as birras e embalaste-me quando o mimo se confundia com sono.
Contigo criei laços ao que sempre chamaste terra. Deixaste-me o orgulho nas minhas raízes e é talvez por isso que cada regresso me sabe sempre a casa.
Sei que quem sou é parte de quem és. Serena-me a certeza de serem teus muitos dos meus traços; destes meus jeitos que me vão caracterizando as marcas da pele.
Gostava de te ouvir a contar histórias, mesmo quando te repetias, mesmo quando fazias uso de palavras que ainda hoje não sei o que significam. Pela tua boca a língua não morria; vivia em termos castiços que me faziam sorrir. As tuas histórias eram pedaços de mim relatados de forma viva e contínua. Fizeste-me viver vidas que não vivo e é grato que me sinto por todas as vezes em que te ouvi.
Hoje, aqui chegado, habituado à tua silenciosa presença, sinto-te a falta quando por ti passo. Deixaste os teus espaços vazios e há noites em que ainda consigo ouvir os teus passos. Se me esforçar oiço-te chamar por mim e sinto-me tolo por continuar a correr em teu auxílio.
Temi querer adivinhar como seriam os dias de ora em diante. No meu íntimo sabia de antemão que o mundo tal como o conhecia mudaria para sempre. Assusta-me o frio que aqui deixaste; que me serenava o teu calor que sempre tomei como certo.
Acho que sempre soube que terias de ir, mas não contei com esse dia no calendário, tamanha a sorte de me teres dedicado tanto do teu tempo.
Vou continuar a fazer tropelias e a crescer ao meu próprio ritmo. Voltar à terra será sempre voltar a ti. E isso deixa-me feliz. 
Porque sim, foste embora, mas não deixaste de aqui estar.
Fica com o meu abraço, Avó.



* Serralves.

Aluadas variações.


Eu sei, eu sei, não é fácil ser Rei
Deixa-se a alma na pele, foi assim que sonhei

Quando todos têm olho, o mais certo é ninguém ver
E é por isso que faço questão de te dizer

Que te adoro, amo, venero e quero
Todos os dias de chuva, de sol, por ti só não como um caracol

És o maior, sem encarnados, que eu gosto dos verdes que não estão estragados
E quando chega a hora de te abraçar, eu quero é sorrir, caramba!, não há maneira de parar

Hoje pediste-me para escrever, assim rezava o calendário
E contigo ao lado, nem preciso do elucidário

Deixas-me feliz, feliz, vê-se na ponta do nariz
Só te digo que "txigar" rima sempre com alegrar

E esse sorriso que te pinta de amarelo e faz de ti o meu caramelo
é o maior presente de sempre, não há nada melhor, por mais que tente.




* Paris.



Propagação térmica.


Está calor. 
Daquele calor que se agarra à pele de imediato, um toque pegajoso que teima em permanecer latejante, ávido de água ou vento que o apazigúe. 
Assim como eu, ávida de ti.



* Nono.

There's no place like home.


Mesmo nas casas onde moram fantasmas mora sempre alguém. Nem sempre o frio é vazio de calor e os fantasmas alimentam-se de amor. 
A saudade enche uma casa de forma tão competente quanto a esvazia.
Uma casa, uma família. E uma família é uma casa. A home, not a house.
Numa casa moram gritos, gargalhadas, choros convulsos, passos apressados, portas a ranger, conversas em surdina, palavras em ricochete, tachos a bater, água a correr, cheiros pelo ar, notícias boas e más, surpresas, incertezas e saudade, tristezas, vapor, frio, calor, amor, muito amor.
As famílias constroem casas como se de ninhos se tratassem. Antecipam tempestades e acorrem a agoiros. Lambem feridas e remendam lapsos de alma. 
Uma casa é uma vitrina onde uma família expõe o seu resguardado coração.
Em casa mora sempre alguém, ainda que se não veja ninguém. E depois há as visitas. As que nos visitam quando nos deixamos visitar, as que nos visitam sem pedir licença e aquelas a quem pedimos para nos visitar. Vidas intercaladas em modo pessoal e intransmissível.
Quando vou pela primeira vez a casa de alguém sinto sempre aquele nervoso miudinho que antecipa o abrir da porta, o momento em que a chave roda na fechadura e a minha imaginação acelerada desenha em câmara lenta cenários hipotéticos com contornos talvez demasiado familiares. Sinto aquelas cócegas de curiosidade como se fosse entrar num museu e observar uma colecção que alguém juntou e estimou ao longo do tempo, sendo que numa casa o que se colecciona são momentos de vida, emoções, pessoas. 
Uma casa é uma espécie de santuário construído com o amor dos dias e pintado com as agruras das horas, onde, por isso, devemos entrar com respeito. Limpo os pés para deixar lá fora todas as impurezas que pisando, me pisam; que me deixando, eu deixo. 
Uma casa é sempre um mundo, um mundo feito em jornadas contínuas de 7 dias sem nenhum para descansar.
As casas têm humores e feitios, os mesmos que os de que lá moram. Foi por isso que gostei de entrar em tua casa. Inspirei o ar com curiosidade e logo a serenidade aqueceu o meu coração - a curiosidade amainou de forma familiar. É assim quando nos sentimos bem. 
Só te posso agradecer teres-me convidado a visitar-te.
Por vezes a família dos outros consegue aquecer-nos como a nossa.




* Brufe, Terras de Bouro.
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